Ao sair, deixei pra tráz uma casa que não era minha, onde meus móveis coloniais contrastam demais com aquela mobília branca. Deixei pra tráz uma cama desconfortável, de pregos que rangiam e molas encômodas. Uma casa que já me acolheu, que já foi suficiente, isso quando me bastava fugir do frio e do relento, pois tudo que eu tinha era um quartinho sem porta e uma janela pra rua, sem a menor possibilidade de aconchego. Mas veio a ambição, a vontade de ter vários cômodos meus e aquela casa não me proporcionava isso, mas eu continuei lá, olhando as casas vizinhas. Quando eu fui embora, deixei lá dentro algumas malas desnecessárias, que só tinham me dado dor nas costas. Eram coisas que me atrapalhariam na viagem se eu troxesse comigo. Fiz uma trouxa, aparentemente pequena, mas tudo o que eu precisava estava lá dentro e ainda havia espaço pra mais. Cruzei a porta, dei duas voltas na chave e quando vi já estava na rua pois a casa não tinha nem varanda. Dei o primeiro passo, o segundo, o terceiro e os outros fluíram. Hoje ainda não tenho casa, mas a rua me diverte. É frio a noite, talvez perigoso, mas é como qualquer outra coisa que tem seu lado ruin. Eu vou encontrar outra casa pra mim, vou fazer dela meu lar e ela tem que ser rústica preferencialmente, pra que meus móveis antigos se encaixem com as paredes de taipa. Nela reinará a fartura de forma humilde, suficiente pra duas pessoas, com duas cadeiras, uma rede só e uma varanda, caso haja tempo de voltar atráz se eu quizer ir embora de novo.
Ítalo Lemos.

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